Eis que meus olhos
precipitam-se
no mar morto,
que ainda vive.
Meus olhos salobres
renovam-se por inteiro,
o mar os rebenta e rejuvenesce
enquanto
o resto de meu corpo
dilui-se todo no cinza
das nuvens que deixam
sombras por toda a Galiléia e
logo precipitam-se, também:
água, pálpebras, intestino; -
Chove forte, forte
muito forte.
Caio singelamente em terras
desconhecidas e inférteis,
mas minha essência fica.
Emendo-me, corrijo-me
e renasço em cinzas:
pétalas, troncos e pêlos; -
Germino-me em preto e branco,
apresso-me e corro.
Ou voo.
Voo com minhas asas de pelicano,
que logo se despedaçam.
Mais uma vez caio, e
comigo desabam
meu coração confrangido,
minha pele de pano,
minha coragem surrada.
Não obstante,
vivo.
Liquefaço-me
num instante empoado -
Meu réptil coração aquoso,
meus ossos reduzidos a nada
e meus cílios em chamas
fundem-se com toda
uma galáxia.
E tudo isso resulta-se
em:
nada.
Meu sangue rarefeito
escapa-se num vão arterial,
e em silêncio escorre na penugem
delgada de minhas vísceras sem predicativos,
ele navega costeando-me
as costelas quebradas
e me quebra o sono.
Acordo-me e sou
barro.
Sou nada mais que
barro de olhos salobres
e areia morta de um mar
de águas provenientes
da precipitação singela
de meu corpo nobilíssimo
e putrefato.
Danilo Foltran