Precipito-me, singelamente

Eis que meus olhos
precipitam-se
no mar morto,
que ainda vive.

Meus olhos salobres
renovam-se por inteiro,
o mar os rebenta e rejuvenesce
enquanto

o resto de meu corpo
dilui-se todo no cinza
das nuvens que deixam
sombras por toda a Galiléia e

logo precipitam-se, também:
água, pálpebras, intestino; -
Chove forte, forte
muito forte.

Caio singelamente em terras
desconhecidas e inférteis,
mas minha essência fica.
Emendo-me, corrijo-me

e renasço em cinzas:
pétalas, troncos e pêlos; -
Germino-me em preto e branco,
apresso-me e corro.

Ou voo.
Voo com minhas asas de pelicano,
que logo se despedaçam.
Mais uma vez caio, e

comigo desabam
meu coração confrangido,
minha pele de pano,
minha coragem surrada.

Não obstante,
vivo.
Liquefaço-me
num instante empoado -

Meu réptil coração aquoso,
meus ossos reduzidos a nada
e meus cílios em chamas
fundem-se com toda

uma galáxia.
E tudo isso resulta-se
em:
nada.

Meu sangue rarefeito
escapa-se num vão arterial,
e em silêncio escorre na penugem
delgada de minhas vísceras sem predicativos,

ele navega costeando-me
as costelas quebradas
e me quebra o sono.
Acordo-me e sou

barro.
Sou nada mais que
barro de olhos salobres
e areia morta de um mar

de águas provenientes
da precipitação singela
de meu corpo nobilíssimo
e putrefato.

Danilo Foltran

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Variações Sobre o Mesmo Tema

I – Morte da razão

As mutilações notícias de um coração molesto num flanco alemão -
um coração naufragado em águas radiográficas.
Poesia intestina (é loucura! é loucura!)
O passado passava ao passo que.

Vulgarmente o presente presenteava os irradiados corações molestos presentes à ceia enquanto os banqueteava pacífico.

After all, what is life?
Creiam, creiam! A crença é tudo; -
A verdade é que tudo = nada, e que a verdade não existe.

[rubras cortinas fúnebres me cobriam o rodoviário sangue rutilante que passava por minhas veias quentes; - os dentes doloridos caiam um a um, como arestas vogais soantes que sangram que sentam que cingem que soam que surgem dos pecadores flancos inundados de terrenos corações estratosféricos e obscenos]:

sim! bradavam as crianças arqueólogas dançando crimes com os pezinhos sujos na lua virginal; -

o mundo incógnito continuava a observar indiferente o belo suicídio das flores paraquedistas das árvores outonais do outro lado da decadente janela da humanidade risível,

e a racionalidade humana era só mais uma vítima mutilada com a complexa face no orvalho só da grama matinal de meu jardim inglês simples.

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II – Razão da morte

Os dentes doloridos caiam um a um,
e a racionalidade humana era só mais uma vítima mutilada
Uma vítima,
Um coração molesto num flanco alemão -
um  obsceno coração naufragado em águas radiográficas
a observar vulgarmente o belo suicídio das flores.

Simples árvores outonais de meu jardim inglês bradavam:
- After all, what is life? (é loucura, é loucura!)
A crença é tudo e a verdade não existe!

Crianças fúnebres dançando com os pezinhos sujos
as mutilações que surgem como arestas dos pecadores que sangram vogais; -
soantes vogais que soam na lua virginal.

[O passado passava ao passo que o presente banqueteava
notícias, o risível sangue que passava por cortinas fúnebres,
a decadente janela da humanidade
e o nada que continuava indiferente no orvalho só].

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III – La raison

Me gusta la razón -
A degusto, lentamente.
It’s disgusting -
Mas em verdade a degusto.

O gástrico suco a cinge solenemente
E a razão o dá braços recíprocos,
Enfaticamente.
O concúbito ininterrupto,
O ácido amor corrosivo corrompendo
L’amour incorruptível.

(Um ato de beleza inenarrável,
O ocaso da paixão…)

… e os dejetos da razão eram jogados ao poético rio impotável dos acres orgulhos humanos.

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IV – La mort

É chegada a hora de ao poema acrescentar uma lágrima serena, um desfecho irrazoável, um verme irracional
e sete impassíveis palmos de terra.

Danilo Foltran 

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Desilusões de um iludido

Estou cá do outro lado do agitado Pacífico
A escrever e eternizar vosso nobre nome numa rocha que há muito vencera o Tempo
Com ossos porosos das minhas preocupações passadas.
Encontro-me ao mesmo tempo navegando com minha barca patética
Num oceano de sonhos que nunca hão de se realizar.

Enquanto isso meus fios capilares de silício conversam numa taverna além da Inglaterra oriental imaginária
sobre tempos passados sobre suplícios passados ou sobre o ocaso do mundo.
Coisas frívolas do tipo.
Isso na medida em que eternizo vosso santo nome numa rocha inalcançável,
Isso na medida em que navego num oceano seco, de sonhos feitos de cascalho
Sonhos de areia movediça, que me importunam os pés fatigados.

Ao mesmo tempo, um outro eu pervaga entre torres destruídas de petróleo que já não têm valor
Com uma bolsa rasgada e feia nas costas, carregada de pó que antes fora pele e
de ilusões de homens sem futuro e alma.
Já sem poesia aos olhos que estão agora áridos como os sertões do homem mais só.
Ando sem forças nos flácidos músculos de minhas pernas inutilmente esperançosas,
Aliás sem poesia.

Estou, também, a fumar os retratos descoloridos de entes alheios que nunca morreram.
Fumo sentado no verde musgo dos túmulos destes, ao som de um tenor italiano sem voz ou metafísica,
a inalar a tóxica e entorpecente fumaça das saudades sem cor dos que envelhecem sem perceber.
E uns ratos pretos me roem ferozmente o coração estancado que já não bombeia amor,
nem ódio nem nojo nem nada.

Tudo isso ocorre, mas nada disso é verdadeiro.
Meu verdadeiro eu encontra-se sozinho a beber vinho e a procurar
Figuras poéticas falhas que nunca hão de tocar uma alma sequer.

Danilo Foltran

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Medo

Um poema de Jefferson de Oliveira Dias e Danilo Foltran


Sete vezes no museu de Hiroshima; o asfalto liquefazia-se, o ódio
Liquefazia-se, o tempo era um músculo enfadado, uma histerectomia,
Uma escada em espiral, os corrimãos torcendo-se feito coxas:
Eu era o sol recostado em um pé de seriguela,
Um pulmão de caxemira; lia “assim eu quereria meu último poema”
Aos corpos remotos e esfolados de Hiroshima. Um tango argentino.
- Meu nome é Rio de Janeiro, um soluço sem pranto.
Meu sangue rarefeito precipita-se, singelamente;
Escapa-se por um vão arterial,
E em tímido silêncio se escorre pela penugem
Delgada de minhas vísceras sem predicativos;
Uma escada em espiral; a vulva devorava uma Tsar Bomba.
Vitrine translúcida e intransponível:
O símbolo é o transe unânime a que chamamos vida.
Nossos olhos são sempre daguerreótipos.
Jamais beijarei tua boca; beijarei sempre minha própria boca,
Quando muito um daguerreótipo. Tua boca jamais.
As bocas são daguerreótipos. O tempo é uma comoção moral.
La lluvia de huesos of bodies de flores orvalhadas;
As máscaras falsas impressas na carne navalhada,
Deliciosamente.
Manchas pulmonares, corações putrefatos e olhos de serpente.
Encostei minha rude face em teu peito para sentir tua doença,
Tua angústia, Teu receio.
Beijei-te a fronte, sangrei-te a alma, dançamos -
Louvamos o medo, sentimos medo, nos escondemos do medo,
Depois morremos de medo.

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Silêncio

Calai-vos; -

Escutai
o silêncio

(o sábio musgo silente conversa contigo,
comigo, com todos,
e me blasfema o nome.
mas não tenho nome,
nem sequer olhos ou pernas.
desintegro-me todo num segundo
ao som do silêncio verde elétrico,
e a poeira silenciada de meus ossos judeus é
silenciosamente
levada para além dos Urais)

Calai-vos; -

Escutai
o silêncio

(o silêncio sentado debaixo
de um pé de bambus resilientes,
me penteia o cabelo,
me cala a boca,
e me escarra e cerra os olhos imundos.
ele toca uma flauta;
uma melodia que emociona deveras -
e não se escuta nota.
os bambus se secam e morrem
enquanto o silêncio silencia sua música)

Calai-vos; -

Escutai
o silêncio

(um acobreado sino calado simboliza
a morte do quieto imperador;
o silêncio da razão fora sua sina.
sua coroa de vime velho
canta sua partida
para um outro plano qualquer,
igualmente silencioso.
seus escravos de barro dançam
uma tímida dança póstuma
e não se escuta nem um barulho abafado)

Calemo-nos, todos; -

o silêncio se foi

Danilo Foltran

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A história do homem e sua flor

À Camila Barreto:

Tu est la fleur,
Je suis l’homme.

L’histoire de l’homme et sa fleur

Nasceu o menino,
Menino de ferro,
Menino que é sério
Menino que é forte,
Mas força não tem.

Cresceu o menino
Tornou-se adulto,
Trabalhou e correu; -
E correu.
Cansou-se rápido o menino
que tornara-se adulto;
Fechou suas portas
Embebeu-se no tédio
Afogou-se no silêncio -
Doença do século.
E todo dia o caminho
pra sua casa amorfa,
Era de árvores de sono,
Tropeços de náusea,
Ruas sem fim,
Ruas sem nome
De um asfalto monótono,
Sem cor sem brilho sem nada.

Mas num dia desses,
(Desses de tédio,
desses que se apagam
de nossa memória
[cansada memória]
no próximo dia,
também de tédio
e cansaço);
Nesse dia, indo pra casa
O homem de aço,
de nervos inorgânicos
Encontrou algo inédito:
No meio do caminho
não tinha uma pedra,
nem sequer lágrima ou dor;
Tinha, antes, uma flor.
Dessas raras, feitas de amor
Por mãos delicadas,
Mãos que não existem
e que não semeiam
nojo ou rancor.

A flor era orgânica,
A flor que de vidro
ou aço ou frieza não era.
A flor tocou no rosto pálido
do homem sério,
sem brilho no olhar,
E em suas narinas
Soprou-lhe a vida,
Arrancou-lhe o tédio
E – suavemente -
A dureza também.
O oxidado ferro fez-se carne,
Humana carne mortal.
Soergueu-se o homem  -
O homem humano,
que levou consigo
A flor do silêncio contente
A flor que não chora,
Que se abre
To-dos-os-di-as.

Levou consigo para casa
a rosa de prata, de ouro,
marfim,
a rosa vermelha, amarela ou azul
e, enfim,
Aprendeu a amá-la e
percebeu que toda a sua
grandiosa vida
cabia em uma unica pétala daquele
ser aromático, simples e belo.
Nasceu o outro dia,
o outro tempo,
E a sublime flor deu forma à casa,
Destino e nomes às ruas.
A flor parou o tempo
Abriu suas pétalas,
E abraçou o humano.

o homem sorriu

Danilo Foltran

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Ensaio para um suicídio

Um poema de Jefferson de Oliveira Dias, em Yer Blues

Tu me ris
Um riso álgido;
En tus encías
The death is fattened
Tu risa
É somente carne and bones.

We saw,
Dans le bain,
La mujer cujas
Axilas encerram a noite.
Ela é
Chair et os.

The man
Et sa fleur:
Carne, ossos e flor.

In hunger and misery I perished
A thousand times:
No has que llorar tu;
Teu choro é carne e huesos.

Our fate
É:
Nada.
O maior revés humano é o símbolo.

Cette manière,
Puedo beber un suicidio aislado en un pétalo de flor,
Soy capaz de escribir un poema para decir:
Sou carne e ossos
Et tout ce que je dis,
Every word
Vem acompanhada de um verdugo e de um verme,
E cada verdugo e cada verme
Has his mirror and his end.
Cette manière,
Soergo-me.
And I fall again.
This poem is ma vie
E é nada.
Por lo tanto, soy la persona
Mais abjeta.

The biggest misère de l’homme
É a razón.

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